segunda-feira, 28 de setembro de 2009

"Liber enim librum aperit." (al-Razi)



                                                                  "Um livro abre outro."

Certo dia acordei com uma sensação estranha. Isso já faz cerca de 2 anos e meio, lembro bem que foi na época que meu pai estava no hospital pela segunda vez seguida em menos de 1 mês. Talvez tenha sido esse o fato que me despertara alguma consciência para a vida, já que ele NUNCA ficou doente, nunca foi pro hospital. E nessa época eu estava sem trabalhar e cuidando de meus filhos bem pequenos. Optei por não trabalhar e curtir essa fase tão gostosa dos pequenos. Eles íam pra escola no período da tarde. Sendo assim eu ficava fazendo companhia pro meu pai no hospital para que minha mãe pudesse colocar a casa dela em dia, descansar um pouco e trocar de roupa. Acho que foram uns 15 dias no total.
Eu acho que ele gostou da minha companhia porque eu vivia atrás das enfermeiras quando ele precisava de algo. Eu resolvia rápido porque acho muito chato a gente ficar ali, deitado, sem poder realizar, e quem está com a gente fica enrolando pra fazer o que pedimos. Então ficava à disposição. Estava ali pra isso mesmo!
Bem, no primeiro dia após a internação eu tive a tal sensação estranha. Foi como se eu estivesse fechando um livro e começando outro. Era como se tivesse os dois livros em mãos. Um na esquerda, o antigo, era vermelho, capa dura e antiga, um livro que fora bem manuseado e nele havia uma plaquinha dourada e, naquele momento eu não conseguia ler o que estava escrito. Na outra mão, um livro novinho, vermelho, quase igual ao que fora o primeiro quando ainda novo. Só que com todos os adjetivos que se referem a um livro novo.
E eu sentia uma responsabilidade imensa em ter que trocar de livro, de arquivar o antigo, com toda uma história pronta. E agora pegar um livro novo? Como será que poderei começar a nova escrita? Definitivamente ali, eu faltei com a coragem. Seria algo muito simples tomar essa caneta e começar o livro novo. Mas agora, percebo que livros novos podem ser assustadores se algumas páginas do primeiro não tiverem sido muito bem resolvidas.
E o livro começou a ser escrito, claro. Não cabiam mais palavras no antigo. Era pra ser assim, um livro sempre abre outro.
E, sem pensar, o antigo foi atirado a um baú. Mas como tudo que não está bem resolvido e bem claro e definido, uma hora há que se voltar atrás e perceber que faltaram elementos para que o livro novo possa continuar a ser escrito. E resgatar o livro antigo. Pois dele depende o novo.
Ora, lege, lege, lege, relege, labora et invenies. "Reza, lê, lê, lê, relê, trabalha e descobrirás."
O que é de nós sem a oração? Precisamos dela para nos iluminar e assim percebermos o caminho que devemos trilhar.
E assim, também, deve ser com nosso conhecimento, precisamos dele assim como do ar que respiramos. E é preciso fazer as releituras das leituras incansavelmente. A releitura nos amplia a consciência de acordo com os novos ângulos que a vida projeta. E com este trabalho, sim, descobriremos. EUREKA!
E foi aí que veio o Pânico. Na verdade, ele sempre existiu de alguma forma, mas ao jogar o livro antigo no esquecimento, achando que era certo que se fazia, caiu no esquecimento todo o trabalho da vida. E o livro novo, sozinho, não sabe nada. Não tem personalidade. Ainda precisa do velho. O livro novo é um trabalho a partir do velho. E é assim que deve ser. Jamais jogá-lo ao baú. Ler, reler.E entender. E orar, sempre. Pois um livro, abre outro. E numa dessas releituras, acabei, sem querer, conseguindo ler o que dizia a placa do livro: "Patrícia, 12-12-1973."

Um comentário:

  1. Lembro que contou dessa sensação do livro... De alguma maneira me sinto nessa posição agora. Tem uma abertura ali na frente, mas ainda tem tanta luz que não consigo enxergar o que virá. Mas, o que importa, é que é LUZ! E será o melhor pra mim, com certeza. Agora que finalmente está chegando o famoso mês de Outubro e ainda conto com muitas incógnitas - que se mesclam com as vontades do coração, da alma - , dá medo. Muito medo. Às vezes me perco nos pensamentos a respeito do futuro... tento simular diversas situações pra ver como me sentiria em cada uma delas. Enfim... o que me resta senão tentar manter a calma, controlar a ansiedade e esperar pra ver as sementinhas que já plantei? Keep posting... tô adorando. E me ajuda muito também. Grazie =)

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